Apesar de ser uma das províncias mais ricas em diamantes, a Lunda Norte continua mergulhada na pobreza e no abandono, o ativista social Jacques Elias, que acusa o governo local de falta de vontade política e de transformar promessas em silêncio diante da miséria que afeta estradas, escolas, hospitais e comunidades inteiras.
Entrevista Jacques Elias, activista social e natural da Lunda Norte
Jacques Elias, como avalia a situação atual da província da Lunda Norte?
A Lunda Norte vive uma realidade muito triste. É uma província riquíssima em diamantes, mas padece quase de tudo: estradas degradadas, escolas sem condições, hospitais sem medicamentos, falta de água e energia. Nada funciona como devia.
Na sua opinião, quem é o principal responsável por essa situação?
A responsabilidade é do governo local. Falta vontade política e um plano estratégico sério para desenvolver a província. Os sucessivos governos provinciais falharam, incluindo o atual.
Refere-se à atual governadora?
Sim. A atual governadora é a camarada Filomena Miza. Sendo direto e objectivo até agora, não fez nada para mudar o quadro. O que vemos são apenas promessas.
A Lunda Norte é uma zona de forte exploração mineira. Isso não se reflete no emprego local?
Não. Nas empresas mineiras, o povo tchokwe representa apenas 10% ou 15% dos trabalhadores. A maioria vem de outras províncias. Questionamos: por quê, se a terra é nossa?
E quanto aos serviços básicos, como saúde e educação?
A situação é lastimável. Hospitais sem medicamentos, exames inexistentes, pacientes encaminhados para clínicas privadas. Escolas sem carteiras, sem janelas, sem casas de banho dignas. Isso é um atentado à saúde pública e ao futuro das crianças.
Existem verbas públicas para combater esses problemas? Existem, como os fundos do combate à pobreza. Mas a pergunta é: onde está esse dinheiro? Porque nas comunidades não se vê resultado nenhum.
Como está a questão das infra-estruturas, especialmente estradas?
É vergonhoso. Há estradas com asfalto do tempo colonial. Mesmo na capital provincial, Dundo, as vias estão cheias de buracos. Foram anunciadas verbas, como para a estrada 223, mas as obras não avançam.
O senhor também denuncia perseguição a ativistas. O que acontece?
Em Angola, quem denuncia problemas é visto como inimigo. Ativistas são perseguidos, intimidados e silenciados. Em vez de resolver os problemas, o governo prefere calar quem fala.
Apesar disso, continua a denunciar. Por quê?
Porque amo a Lunda Norte. Denunciar é um direito e um dever cívico. Lutamos para que o povo tenha água, energia, saúde, educação e dignidade.
Que mensagem deixa ao governo central?
Que olhe para a Lunda Norte como olha para outras províncias. Não merecemos viver nessa miséria. Queremos desenvolvimento, justiça social e respeito pelo nosso povo.



