Estamos em 2026, um ano pré-eleitoral. Como avalia as movimentações iniciais dos partidos políticos nacionais?
Mos Califa:
A avaliação é simples: os angolanos já sabem o desfecho. Independentemente das movimentações, o MPLA continuará no poder. Isto não é opinião isolada, é uma perceção generalizada, embora muitos não tenham coragem de dizê-lo publicamente.
Em 2022, toda a oposição, sociedade civil, Bloco Democrático, Abel Chivukuvuku e outros, uniram-se em torno da UNITA. Mesmo assim, o resultado não se traduziu em alternância efetiva. A UNITA declarou vitória, mas não governa. Isso demonstra que o problema não é popularidade.
A UNITA afirma que houve fraude eleitoral em 2022. Como interpreta essa narrativa?
Mos Califa:
Essa narrativa serviu mais para consumo interno. Um dos principais membros do processo, Abel Chivukuvuku, concedeu entrevistas internacionais afirmando que não houve fraude, mas sim pressões externas que levaram a UNITA a ceder.
Jonas Savimbi já havia falado dessas pressões em 1992. A história repete-se. Existe uma força internacional que influencia diretamente os resultados políticos em Angola, e isso raramente é dito ao povo.
Na sua visão, quem governa realmente Angola?
Mos Califa:
Não é apenas o MPLA. O MPLA funciona como gestor local de interesses internacionais, principalmente das grandes potências. Angola está cheia de estrangeiros com privilégios superiores aos dos próprios angolanos. Isso não é coincidência.
Um deputado da UNITA afirmou que é crucial que o povo vote massivamente no partido em 2027. O que pensa dessa declaração?
Mos Califa:
Esse discurso é vazio. Os deputados fogem do debate direto com os cidadãos. Preferem discutir entre si MPLA contra UNITA porque isso mantém o ciclo da acusação e da vitimização.
Se a UNITA governasse hoje, teria de apresentar soluções concretas. Mas a miséria é politicamente útil. Sem miséria, muitos discursos perderiam força.
E quanto às outras forças políticas — PRS, Partido Liberal, FNLA, CASA-CE, PEL — vê nela alternativa real?
Mos Califa:
Não. Nenhuma apresenta um projeto sério de governação. O discurso resume-se a “o MPLA tem de sair”. Isso não é programa político.
Além disso, muitos desses partidos dependem direta ou indiretamente do próprio MPLA para sobreviver. Quem financia, controla. Não se pode esperar rutura real nessas condições.
Então, para si, nenhum desses líderes tem condições de ser Presidente da República?
Mos Califa:
Capacidade toda tem. Falta coragem. Coragem de dizer a verdade ao povo. Falta coragem de admitir que o voto, sozinho, não decide quem governa Angola. As decisões passam por forças internacionais, e todos eles sabem disso.
Como avalia o papel dos ativistas políticos no país?
Mos Califa:
O termo “ativista” virou moda, muitos são apenas militantes digitais, ligados a partidos. Ativismo verdadeiro não é pró-governo nem pró-oposição, é compromisso com a verdade, mesmo quando ela incomoda.
Aqui, quem fala a verdade é rotulado, atacado ou silenciado. O povo também rejeita a verdade porque ela exige responsabilidade individual e coletiva.
O senhor responsabiliza também o povo pela situação do país?
Mos Califa:
Sim. O povo não é apenas vítima. Existe conivência q
uando se normaliza corrupção, promiscuidade, irresponsabilidade social, o resultado é um país governado por líderes que refletem esse comportamento.
A educação moral começa em casa. O Estado dá instrução académica, mas carácter e discernimento são responsabilidade familiar e individual.
Que mensagem deixa aos partidos políticos?
Mos Califa:
Nenhuma. Não acredito que estejam interessados em mudar. A minha mensagem é para o povo angolano: enquanto formos militantes, seremos inimigos de nós mesmos.
Partidos são pequenas empresas que devem prestar serviço ao cidadão. Precisam ser cobrados, fiscalizados e confrontados com projetos concretos. Sem isso, tudo continuará igual.
E qual seria, então, o caminho?
Mos Califa:
Despartidarizar a consciência. Voltar a ser simplesmente angolano. Antes do MPLA, da UNITA ou de qualquer outro partido, nós já existíamos como povo.
Quando o cidadão se coloca acima do partido, a política muda. Enquanto isso não acontecer, 2027 será apenas mais um capítulo do mesmo roteiro.b



