LUANDA – O Hospital Pediátrico David Bernardino, referência no atendimento infantil em Angola, está no centro de uma investigação informal após denúncias graves de corrupção. Funcionários e utentes acusam a existência de uma “quadrilha encoberta” que gere uma clínica privada dentro das instalações públicas, utilizando-se de fármacos, reagentes e pessoal do Estado para fins lucrativos.
Medicamentos e reagentes laboratoriais (como os de teste de Mantoux), que deveriam ser gratuitos, estariam a ser canalizados para a clínica privada, onde são cobrados a preços inflacionados (até 12.000 Kwanzas).
os Profissionais de saúde abandonariam os seus postos no hospital público para atender na ala privada, atraídos por salários superiores, resultando em escalas de serviço desfalcadas na unidade estatal. Relatos indicam que funcionários desencorajam o atendimento gratuito, pressionando pais e responsáveis a pagar pelos serviços na clínica privada para obterem rapidez ou diagnóstico.
“Cheguei com o meu filho doente de madrugada e não fui atendido. Um enfermeiro disse que só seria rápido se eu fosse à clínica e pagasse.” – Relato de um utente ao portal Hora H.
Apesar da gravidade das acusações, a estrutura de gestão e o próprio Ministério da Saúde mantêm-se em silêncio, A ministra Sílvia Lutukuta não se pronunciou sobre a legalidade da operação desta clínica. A diretora Elsa Manuela de Castro Barbosa Gomes não respondeu aos pedidos de esclarecimento sobre quem são os reais proprietários da referida clínica.
O contraste é gritante: enquanto o hospital recebeu recentemente investimentos do Executivo e uma nova ala inaugurada pelo Presidente João Lourenço — equipada com 135 camas e tecnologia de ponta para cuidados intensivos e neonatologia — os serviços essenciais parecem estar a ser “privatizados” por vias travessas, comprometendo o acesso da população mais carente.



