Quarta-feira, Maio 20, 2026
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InícioENTREVISTAMfuca Muzemba: "Fui o fundador das manifestações públicas em Angola"

Mfuca Muzemba: “Fui o fundador das manifestações públicas em Angola”

Em entrevista ao programa “Turbilhão da Sociedade”, da TV Maiombe, o Coordenador Geral do Projecto Político Esperança revisita os anos 2000, reivindica o pioneirismo dos protestos estudantis pós-independência e critica o medo que os governantes têm do debate livre.

Entrevista conduzida por: Jubileu Panda

TV Maiombe: O seu percurso político confunde-se com o nascimento do associativismo estudantil independente em Angola.

Como é que tudo começou?

Mfuca Muzemba: A minha consciência cívica despertou muito cedo, por volta dos 14 anos. Fui fortemente influenciado pela cultura Hip-Hop e pelo convívio com figuras icónicas do rap nacional no bairro Palanca, como o Clever e o MCK. Naquela altura, a União dos Estudantes Angolanos (UEA) estava completamente atrelada à vontade do partido no poder (MPLA). Nós precisávamos de canais alternativos. Foi assim que, no ano 2000, com apenas 19 anos, reuni vários colegas e fundámos o Movimento de Estudantes Angolanos (MEA), inspirados nos movimentos estudantis francês e português.

Os estudantes são o grupo transformador de qualquer sociedade. Infelizmente, Angola é um país que menospreza, prende e maltrata o estudante, quando noutras paragens ele é um agente de mudança determinante.

TV Maiombe: O MEA ficou conhecido por desafiar o poder político numa altura em que o país ainda estava em guerra. Que marcos destaca desse período?

Mfuca Muzemba: Posso afirmar, sem hesitar, que a história do activismo de rua e das manifestações públicas na Angola contemporânea começou sob a minha liderança. Em 2001, em pleno período de guerra e sob um regime altamente repressivo, realizámos aquela que considero a primeira manifestação pública de contestação ao poder político pós-independência. Reunimos mais de dois mil estudantes e marchámos do Largo Primeiro de Maio até ao Largo dos Ministérios para exigir a criação de um passe social de transportes.

A pressão das ruas, apoiada pela cobertura corajosa de órgãos como a Rádio Ecclésia e os jornais Folha 8 e A Capital, foi tão forte que forçou uma resposta imediata do palácio presidencial. Por orientação do então Presidente José Eduardo dos Santos, fomos recebidos pelos ministros da Educação (Burity da Silva), dos Transportes e das Finanças para negociar o fim do impasse.

TV Maiombe: O passe social acabou por ser sucessivamente adiado. Que balanço faz, então, do impacto real das vossas ações entre 2000 e 2005?

Mfuca Muzemba: O passe social falhou por incumprimento do Governo, mas o MEA conquistou vitórias históricas directas. Conseguimos a aprovação, em Conselho de Ministros, das Bolsas de Estudo Internas para financiar estudantes em universidades privadas, respondendo à massificação do ensino. Também fomos responsáveis pela criação da Brigada Policial Escolar para patrulhamento nos perímetros escolares e impulsionámos o programa da Merenda Escolar para o ensino primário, desenhado em parceria com quadros da época como a Luísa Grilo e a Alexandra Simeão.

Além disso, atuámos na retaguarda da histórica greve universitária de 2003 na Universidade Agostinho Neto (UAN). A pedido de jovens que hoje são figuras conhecidas, como o Rafael Aguiar e o Gilberto Figueira, mobilizámos os estudantes do ensino médio para engrossar os protestos. Evitámos a anulação do ano lectivo e garantimos os subsídios de estágio para a Faculdade de Medicina.

TV Maiombe: Mudando de cenário para a actualidade, o Projecto Político Esperança apresentou em 2022 um memorando ao Governo sobre a comunicação social. O que o move nessa causa?

Mfuca Muzemba: Não há democracia sem liberdade de imprensa, nem há fiscalização dos políticos sem uma imprensa livre. Em 2022, denunciámos formalmente a precariedade material e os baixos salários que os jornalistas enfrentam, tanto nos órgãos públicos como nos privados. A tradição da ciência política ensina-nos que os políticos têm medo dos jornalistas. Talvez eu seja um dos que não têm. Mas os nossos dirigentes que estão no governo não se comunicam, fogem aos debates, porque têm muito medo.

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