Segunda-feira, Maio 18, 2026
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Tanaice Neutro: “O Parlamento está cheio de bonecos que só levantam a mão em troca de luxos”

Em entrevista exclusiva ao Programa Turbilhão da Sociedade com o e director  jornalista Jubileu Panda, o mediático activista quebra o silêncio após mais uma detenção. Agora na liderança do recém-criado “Movimento Cívico Fazemos”, Tanaice analisa o xadrez para 2027, critica a gestão económica de Vera Daves e traça um paralelo implacável entre Eugénio Laborinho e Manuel Homem.

 Recentemente, lançou o movimento cívico “Fazemos por Angola e pelos Angolanos”. O que motivou a criação desta plataforma?

Tanaice Neutro (TN): Obrigado pelo convite, Jubileu. O Tanaice hoje está muito focado na vertente social, mas eu sou apenas um. Todos os dias recebo apelos de Benguela, Malanje, Luanda… São mães com filhos doentes, estudantes excluídos por falta de pagamento de propinas, pessoas sem comida a pedir-me para fazer vídeos e conseguir doações. Sendo um só, fico limitado. Com o Movimento Cívico Fazemos, pretendemos cobrir as 21 províncias do país para dar uma resposta estruturada a esses gritos de socorro.

Mas o movimento assume-se apenas como uma plataforma social ou há uma agenda política de olho nas eleições gerais de 2027?

TN: Tem duas frentes. A social e, claramente, 2027. Todos sabemos que o país caminha para mais um processo eleitoral cinzento e o MPLA vai tentar as suas habituais manobras. Por outro lado, a oposição acaba sempre por dizer que o partido no poder não ganhou, promete lutar nas instituições, mas depois os deputados acomodam-se e o povo continua a sofrer. O nosso movimento veio dar um “papo recto”: nós vamos fiscalizar e controlar as eleições nas urnas através do lema “votou, sentou”.

 Se considera o formato eleitoral fraudulento, qual é a lógica de mobilizar a população para votar?

TN: Porque temos de agir dentro do quadro da Constituição da República. Se dependesse do nosso movimento, o MPLA e o João Lourenço saíam do poder hoje mesmo. Mas, para que não nos acusem de golpe de Estado ou rebelião, estamos a respeitar os prazos legais. Eles não cumprem a lei, mas nós fazemos questão de cumprir. A eleição é a janela legal que temos para correr com o MPLA. Se perderem, têm de sair. Desta vez não vamos permitir falcatruas.

Críticas ao Parlamento e Recusa de Cargos Políticos

TS: Olhando para o actual xadrez político, a oposição está preparada para governar?

TN: Qualquer partido será melhor, porque o MPLA provou ser o pior em 50 anos de governação. Repare aqui no estúdio da TV Maiombe: uma estação com mais de cinco anos e nem um ar-condicionado tem. Estamos aqui os dois a passar calor porque vocês não são jornalistas da TPA ou da TV Zimbo, as televisões da propaganda. O partido que apresentar o melhor programa terá o nosso apoio, mas não queremos mais hesitações. Abel Chivukuvuku, Adalberto Costa Júnior e Filomeno Vieira Lopes “tremeram” o poder em 2022. Enquanto eles estavam na rua, eu estava preso. A sociedade civil precisa de agir por conta própria.

 Há quem diga nos bastidores que movimentos cívicos como o seu servem de trampolim para conseguir assentos na Assembleia Nacional. Ambiciona ser deputado?

TN: Comigo não há panos quentes: o Tanaice Neutro não quer ser deputado. O meu problema é Angola, e Angola não se resolve dentro da Assembleia Nacional. No Parlamento, a maioria dos que entram tornam-se “bonecos”. Só servem para levantar a mão em troca de carros de luxo, dinheiro e casas, mas ficam de boca amordaçada. Eu sou um homem de sangue quente, não conseguiria sentar-me ali a assistir a injustiças. Noventa por cento daqueles deputados não fazem nada. O único que realmente levava os problemas reais da população ao Parlamento era o deputado Monteiro, e o fim dele todos nós conhecemos. Não vou para lá para ter o mesmo destino.

"No Parlamento, a maioria torna-se 'boneco'. Só servem para levantar a mão em troca de carros de luxo, dinheiro e casas, mas ficam de boca amordaçada."
— Tanaice Neut 
Correm rumores de que cobra valores monetários para dar eco às causas sociais que defende. Isto é verdade?

TN: O facto de eu não ter o “rabo preso” com nenhum partido dá-me total liberdade. Sobre cobrar dinheiro: nunca cobrei um único kwanza para ajudar numa causa social. Quem inventa isso é mentiroso e invejoso. O que acontece é que, quando resolvemos o problema de alguém — problemas que deputados, jornalistas e advogados não conseguiram resolver —, as pessoas sentem-se gratas e dão uma gratificação voluntária. Eu recebo por gratidão, mas nunca por exigência. Se eu cobrasse para fazer activismo, seria um michero (extorsionário). Eu sou activista.

Avaliação do Executivo: Vera Daves vs. Sílvia Lutucuta

 O MPLA caminha para o seu Congresso, especulando-se candidaturas como a do general Higino Carneiro. Como analisa o cenário interno do partido?

TN: O MPLA vai entrar em campo com três jogadores, mas dois vão ficar no banco: Higino Carneiro vai assumir aquilo. Os outros concorrentes eu nem sequer conheço. Quem realmente deveria concorrer com o Higino era o “Nandó” (Fernando da Piedade Dias dos Santos), mas ele já não tem pernas para este calendário. Havia também o jovem Valdir Cónego, mas o Presidente João Lourenço neutralizou-o politicamente antes do tempo. E quanto a Luanda, o Tomás Bica não tem bagagem política para a capital. Ele governou o Cazenga e não fez nada; imaginem Luanda inteira.

 A Ministra das Finanças, Vera Daves, é frequentemente elogiada pelo seu desempenho técnico. Qual é a sua avaliação?

TN: Falar de competência da Vera Daves deixa-me chateado. Alguém competente não pode fechar os olhos aos desvios financeiros na AGT (Administração Geral Tributária). O dinheiro não sai de lá sozinho, alguém valida. Se dependesse de mim, a ministra e a direcção da AGT estariam detidas. Onde estão as melhorias? Hoje, o cidadão comum pega em 100 mil kwanzas e já não compra uma cesta básica para o mês. A inflação disparou, a função pública chora e os aumentos salariais de 5% são imediatamente engolidos pela subida dos preços em mercados como a Praça do México. Ela merece ir descansar.

 E quanto à Ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta?

TN: A essa governante posso tecer alguns elogios. Tem falhas? Tem. Mas, pelo menos, quando eu recolho uma criança ou uma senhora doente nas comunidades e recorro aos hospitais, a equipa dela entra em contacto por orientação superior e resolve a situação. Dou-lhe uma nota de 8 em 10. Não dou nota máxima porque os hospitais em Angola estão bonitos por fora, mas por dentro não têm medicamentos nem seringas, obrigando o cidadão a comprar tudo nas farmácias privadas dos próprios médicos. Se o Executivo diz que há medicamentos, por que razão os governantes viajam para o estrangeiro quando adoecem?

 É conhecida a sua relação peculiar com o ex-Ministro do Interior, Eugénio Laborinho. Como define essa ligação, considerando que foi detido várias vezes no mandato dele?

TN: O general Eugénio Laborinho prendia-me, é verdade, mas — justiça seja feita — ele nunca permitiu que me fizessem mal na cadeia. No tempo do Laborinho, eu ficava detido na área especial, a mesma ala onde estiveram Augusto Tomás e Pedro Lussati. Uma vez perguntei-lhe na cela o porquê de estar ali, e ele respondeu-me que, apesar dos meus “exageros”, eu era um grande activista e não podia estar misturado com a criminalidade comum. O Laborinho é leal. No entanto, saio em defesa do “Mangenas”. O “Mangenas” já tem ordem de soltura emitida pelo tribunal, mas continua na cadeia há dois anos. Apelo publicamente às autoridades: soltem o homem. Estão a manchar a reputação da justiça angolana.

 E qual é a sua opinião sobre o actual Ministro do Interior, Manuel Homem?

TN: Esse jovem é pior que o Laborinho. O Manuel Homem preocupa-se muito com o aparato no TikTok, age como um blogger para parecer que está a fazer um grande trabalho, mas a realidade nas esquadras é dura. Nas vezes em que fui detido recentemente, sob a gestão dele, dormi no chão e as condições eram desumanas. Consegui fazer um vídeo clandestino dentro de uma esquadra móvel para mostrar a precariedade em que vive a nossa própria polícia: agentes a dormir sobre papelões porque o ministério nem o básico lhes dá. No tempo do Laborinho, apenas eu e o Luther King estávamos presos; agora, com o Manuel Homem, há uma perseguição massiva à juventude activista, enquanto os gestores que desviam fundos saem com penas suspensas.

O Conselho do Juiz e o Futuro da Luta Cívica

 Recentemente voltou a ser detido nas imediações de um tribunal. O que aconteceu detalhadamente nesse dia?

TN: Fui ao tribunal apoiar o julgamento de um companheiro activista. À porta do edifício, que é público, fui barrado por “ordem superior”. Às 14 horas, um comandante abordou-me para me levar. Eu recusei, perguntei qual era o crime e disse que teriam de me matar ali. Mobilizaram mais de 20 polícias e forças militares; cercaram o tribunal por causa de uma única pessoa. Fui levado novamente para a esquadra da Boa Vista. Isto acontece pouco tempo após a visita do Papa, que aconselhou o Executivo a dialogar com a juventude. Eles fingiram ler a Bíblia, mas o conselho entrou por um ouvido e saiu pelo outro.

 No passado, admitiu ter usado palavras excessivas contra figuras do Estado. A sua postura mudou após os conselhos do magistrado do seu processo?

TN: No meu julgamento anterior, o juiz Daniel Ferreira — um grande magistrado — fez-me uma abordagem muito pedagógica. Ele disse-me: “Tanaice, tu és pai. Faz o teu activismo, mas sem ofender as figuras de Estado”. Eu aceitei o conselho e, desde 2022, não ofendo ninguém. Estou focado na acção social. Mas parece que, quando ficamos calmos, eles acham que estamos com medo. Eu já provei que a cadeia não me amansa. Não gosto da prisão, mas se continuarem a prender-me ilegalmente, voltarei lá as vezes que forem necessárias para defender o povo angolano.

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