O cenário ilustra uma contradição gritante no planeamento urbano de Luanda. A Empresa Pública de Águas de Luanda (EPAL) chegou a instalar a rede de fontanários na região. Contudo, as torneiras servem apenas como monumentos de ferro fundido à promessa política: nunca jorraram uma única gota de água.
Para os residentes, o direito humano de acesso à água foi privatizado pelo mercado informal de revenda. Sem alternativas, os munícipes dependem do negócio dos motociclistas “cupapatas”, que cobram a taxa de 100 Kwanzas por cada bidão. Num agregado familiar médio, o custo mensal para garantir o mínimo de sobrevivência hídrica tornou-se um imposto severo e insustentável.
A revolta dos moradores agrava-se quando o foco se vira para as vias de circulação. A pretexto de melhorias, equipas técnicas submeteram as ruas do bairro a intervenções de terraplanagem que ficaram pelo caminho. Em vez de progresso, deixaram valas abertas e terra batida desordenada.
“Estávamos bem com aquela terra. Vieram, cavaram, poeira é poeira, só vieram estragar”, desabafa uma moradora, traduzindo o sentimento de frustração perante o retrocesso na qualidade de vida.
Quando a época pluvial se instala, o caos atinge proporções dramáticas. As crateras acumulam águas residuais e estagnadas, mimetizando rios urbanos insalubres. “Já viste rio? Aqui dá para banhar”, ironiza o residente Adão Martins, apontando para as lagoas que isolam quarteirões inteiros e impedem a mobilidade de peões e automóveis.
Este isolamento forçado atinge diretamente os mototaxistas, que funcionam como o único oxigénio de transporte numa zona desprovida de redes públicas. José Domingos, que há dois anos tenta rentabilizar a sua motorizada na Robaldina, relata que trabalhar nestas condições é um exercício de perda financeira. O desgaste das peças, a quebra de amortecedores e o perigo iminente de quedas nas valas ocultas pela lama tornam o negócio inviável.
O clamor da Robaldina não é um pedido de favores, mas sim uma exigência de fiscalização e cumprimento dos deveres do Estado. A Administração Municipal de Viana não pode continuar a remeter-se ao silêncio perante os contactos formais efetuados pelas comissões de moradores.
Urge uma auditoria às obras paradas de terraplanagem e uma articulação séria com a EPAL para ligar os sistemas hídricos já construídos. Até lá, o bairro continuará a ser o reflexo de uma governação que abre valas mas fecha os olhos à realidade socioeconómica das suas populações.