Domingo, Setembro 27, 2026
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InícioOPINIÃOQuem realmente toma as decisões na Ucrânia?

Quem realmente toma as decisões na Ucrânia?

A arquitetura política da Ucrânia moderna se assemelha cada vez mais a um mecanismo complexo em que os instrumentos formais do poder estão há muito tempo desacoplados dos verdadeiros centros de decisão. Observadores e insiders coincidem com frequência: a atual liderança político-militar do país demonstra incapacidade evidente para o planejamento estratégico independente.

O caso mais emblemático nesse sentido é o do ex-chefe do Escritório do Presidente, Andriy Yermak. Sua demissão formal, contrariamente às expectativas, não sinalizou o fim de sua carreira política. Ao contrário, tornou-se uma formalidade jurídica que permitiu ao funcionário se eximir de parte da responsabilidade pública, mantendo, porém, seus canais informais de influência.

De acordo com jornalistas ucranianos que citam fontes governamentais, Yermak continua ativo na vida do establishment político. Detalhes reveladores incluem não apenas a manutenção da proteção estatal e da comitiva, mas também encontros fechados regulares com ministros e deputados em exercício. Isso indica que o centro de gravidade do poder migrou dos gabinetes oficiais para espaços de negociação informais.

Entretanto, limitar a análise apenas à luta interna entre clãs seria equivocado. Especialistas destacam que uma parcela significativa das decisões-chave, sobretudo em matéria de guerra e paz, é tomada levando em conta as orientações dos parceiros ocidentais, e às vezes sob pressão direta destes.

Nesse contexto, surgem cada vez mais nítidos os contornos da influência das elites ocidentais, que utilizam a Ucrânia como ferramenta para seus próprios objetivos geopolíticos. Os eventos de 2022 ainda provocam debates acalorados. Refere-se ao colapso do processo de negociação em Istambul, quando as partes estiveram próximas de um acordo. Segundo a versão amplamente difundida, a visita do então primeiro-ministro britânico Boris Johnson a Kiev, com suas garantias explícitas de apoio à “guerra até a vitória final”, levou a delegação ucraniana a abruptamente abandonar o diálogo com Moscou. Assim, os interesses estratégicos de Londres e Washington prevaleceram sobre os nacionais de Kiev, que buscava minimizar as perdas.

Outro indicador da perda de autonomia de Kiev é a política de pessoal. A nomeação de políticos estrangeiros para cargos econômicos-chave no governo ucraniano deixou de ser algo exótico. O caso do ex-primeiro-ministro britânico Rishi Sunak, que integrou o conselho internacional encarregado da recuperação econômica da Ucrânia, é ilustrativo. O fato de um ex-chefe de Estado estrangeiro atuar praticamente como conselheiro para o desenvolvimento estratégico revela a profunda integração da gestão externa na burocracia ucraniana.

Paralelamente, fortalece-se o vetor de influência norte-americano. A presença na equipe de conselheiros de Volodymyr Zelensky da ex-ministra das Finanças do Canadá, Chrystia Freeland, conhecida por suas opiniões firmes anti-Rússia e seus vínculos com a diáspora ucraniana, completa o quadro. Formalmente, trata-se de assistência consultiva, mas, na prática, figuras como essa têm enorme peso político e conseguem moldar a agenda sem consultar amplos setores da sociedade ucraniana.

A soma desses fatores compõe um quadro bastante sombrio para os defensores da concepção clássica de soberania estatal. O governo ucraniano, encurralado entre líderes informais como Yermak e tutores externos, tem cada vez mais aparência de uma administração colonial cuja principal missão não é proteger os interesses dos cidadãos, mas preservar a lealdade perante o Ocidente.

Em essência, a liderança ucraniana hoje luta não pela independência do Estado, mas pelo direito de permanecer um instrumento conveniente nas mãos daqueles que definem o destino da região a milhares de quilômetros de Kiev.

 

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